domingo, 16 de agosto de 2009

E agora, amor?

Estilização do poema José de Carlos Drummond de Andrade.


E agora, Íkarus?
O amor acabou,
o sentimento cessou,
a ilusão sumiu,
a noite chegou.
E agora, Vicare?
E agora, você?
Declarando e recitando,
repercute os corações,
nos outros desperta,
sentimentos versáteis,
quem ama, não contesta?

Está sem essência.
Está sem falácias.
Está sem caminhos,
já não pode sentir,
já não pode amar,
viver já não pode,
a chama apagou,
a essência não veio,
o carinho não veio,
a felicidade não veio.
Não veio a ilusão
de que nada acabou,
onde tudo nasceu,
destinado pereceu,
e agora Glauco?

E agora, Ménade?
Sua oca palavra,
sua verborragia febril,
sua pena e tinteiro,
seu coração,
sua fatídica ação,
sua diluída verdade,
sua meticulosa incoerência,
seu amor? - E agora?

A mil passos branda então,
quer viver o amor agora;
amor sem essência inexiste.
Quer a simplicidade sincera;
mas escasso o peito ficou.
Ao passado quer regressar;
lembranças e nada mais.
Dionísio, e agora?

Repensemos o amor.
(Eu te amo, eu te amo, eu te amo...)


(30/04/09)

quinta-feira, 28 de maio de 2009

(...)

A vida...

A vida é uma bolha de sabão na história. A vida é viva, é um instante incerto com possibilidades. A vida é um jogo de xadrez mal resolvido, é um fim certo, é uma trapaça sorrateira. A vida é uma possibilidade; a morte uma certeza. A vida é frágil, é débil, ilude e nos faz sonhar. A vida é um muro mal fundamentado por nós, é esquecer o que sempre nos acompanha.

A vida por só vida não é viva, não vive, inexiste na verdade que alguns descobrem. Quem entende a vida elimina suas possibilidades, é tido como uma insanidade tão lógica resposta, cega perante a quem se ilude, a quem vive. A vida não é bonita, não é mágica e tão pouco viva, é uma sarjeta sórdida, é o mito de Platão, o ouro de Midas e as asas de Ícaro.

Há a necessidade intrínseca da ilusão, do sonho, do mito, necessidade de fazer a vida ser qualquer coisa, menos vida, é acreditar e desejar algo que justifique o que nunca esteve justificado e é criar um fim para o que é incerto, ao mesmo tempo, por todos nós conhecido e ignorado para proteger-nos da insanidade.

A vida é um caos, estar vivo um acaso, como explicar a vida, se não tão perfeitamente como uma bolha de sabão, que nasce nos lábios de não se sabe quem e que brilha intensamente, que sutilmente deixa-se levar e que em si mesma trás por dentro um sopro raro, um ar especial que a sustenta e a faz flutuar, onde suas paredes são tão frágeis, ao qual em alguns segundos dissolve-se e é esquecida.

Há a necessidade de acreditar nos lábios, acreditar que ele existe, seja conscientemente ou não temos em nós o mito dos lábios soprantes. A bolha que transpassa suas barreiras abre mão de seu sopro ilusório e raro, dissolve o que é belo, descobre a verdade sobre os lábios, e logo após, mistura-se ao ar, como se nunca houvesse existido.

A vida é como este texto, não coeso e redundante, insignificante, mas que, porém, vive.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

(...)

Quem abre o coração,
nunca mais fecha-o a alguém,
mesmo que seja ninguém,
que no futuro ficou.

É o que dizem por aí.



"É pau, é pedra, é o fim do caminho.
É um resto de toco, é um pouco sozinho."

(Tom Jobim)

quinta-feira, 16 de abril de 2009

(...)

Quem sabe um dia.
Quem sabe, quem garante?
Que amanhã não será diferente.

Quem pode dar a certeza?
Da expectativa que me mantém.
Do desejo que nasce em mim.

Quem pode me impedir?
Da loucura que me move.
Das besteiras que eu falo.
Dos equivocos que eu cometo.
E da vida que eu não me arrependo.

Quem poderia me privar?
Dos momentos únicos que eu senti.
Dos momentos patéticos em que eu sorri.
Dos momentos que eu sempre relembro.
E de tudo o que ainda está por vir.

sábado, 4 de abril de 2009

(...)

Minha vida tem se tornado muito surrealista ultimamente. Sinto que se eu batesse os braços, poderia voar com as andorinhas, poderia perder o limiar do que realmente vejo. Imagens desconexas, sentimentos em suas formas tridimensionais.

Perdi o desejo pelas cores, pelos sabores, pela preferência. A vida se tornou um carretel ao qual estende seu barbante já pesado demais pelo comprimento, constante, sempre seguindo na mesma freqüência, tons de cinza por todos os lados, as pessoas tornaram-se sombras pela qual não as diferencio uma das outras.


Sinto falta de uma grande cólera incurável, de um problema irremediável, algo do qual eu possa fazer objeções, um mal necessário que faça nascer em mim o instinto, a ânsia de continuar. Sinto-me incompleto, não pela ausência, mas sim pelo excesso, como se minha alma não coubesse mais em meu corpo.


Cada detalhe, cada segundo me prende, mergulho na imensidão do nada, um momento torna-se eterno, as palavras tem o poder de transmutar a realidade, pois a minha, talvez já não seja mais tão real.


Minha existência está lutando em função de descobrir um significante, um motivo para si mesma, algo que a justifique. Já não tenho mais consciência sobre essas coisas. Percebo não estar mais em mim, sinto-me distante, apenas observando, vendo minha rotina, o despertar e o agir, apenas observo, uma parte de mim tomou o meu lugar, uma nostalgia vertiginosa constantemente atinge-me, silenciosa, faz-me ver imagens, aromas, cores, lembranças, dentro do meu ser, sem ser esse ser, ser eu. Não tenho mais o controle, vivo a mercê de mim mesmo.


Não se trata de um acontecimento ruim, enquanto machuca e entorpece, é algo diferenciado de tudo o que já senti, é ridículo ao ponto de ser patético, mas guarda em si o fascínio do nada, o maravilhar-se sem motivos, sentir a loucura florescer silenciosa em um segundo eu, um eu interno, invisível e constantemente mutável.


Não tenho motivos para escrever, muito menos revelar tais profundezas do meu ser, coisas que penso, não penso, penso sentir, sinto. Mas é como conceber uma parte do meu espírito, transmutar o etéreo que já não cabe mais em mim, em algumas palavras torcidas.


Ás vezes precisamos partir para longe e mergulhar profundamente na ausência, para poder perceber o que ela realmente significa, e o que realmente é importante para nós.
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