domingo, 7 de novembro de 2010

Quem - ou o que - sou?

Uma descrição singela, porém justa, basear-se-ia nas expectativas e frustrações projetadas sobre meu corpo e/ou palavras. Minhas faltas, nada mais do que já vistes e desaprovastes - repugnastes. Meus acertos, seus objetivos - anseios. Cabe a ti, agora, julgar conforme o tato: escolha a cor, doce ou amargo? A quem preferir ambos - caso tenha ciência da dualidade - sem o véu nos olhos que cobre o - ingênuo - senso de humanidade presente em cada ser, a minha sincera admiração. Agora podes responder - com convicção - o que sou, ou o que deveria ser.

domingo, 4 de julho de 2010

Citatene Purp

Coronária de São Paulo, em um bloco qualquer submerso no subcutâneo da sociedade: reduto de verdades, sinceridades e amargor, um belo lugar de se levar a vida, diga-se de passagem. Ao lado de uma artéria, mal se distingue o que poderia ser considerado uma pessoa. Na taciturnidade, lânguido às frestas de um bueiro, cabelos vermelhos e desbotados em um corpo sacramente prostrado perante a realidade, na tez seminua e voluptuosa a expressão do acaso, a essência lúcida, mas, que olhos vivazes, que olhos verdadeiros fitam os feixes brilhantes que se insinuam na caverna. Lábios trêmulos. Distingue-se o desejo na noite que se aproxima trazendo peripécias aos frutos vistosos da ilusão.

- Quantas formas de extrair prazer...

Lábios trêmulos.
Afastando ambas as mãos de seu âmago, expõe um singelo metal perfurante.
O desejo incita seus sentidos, o momento se aproxima.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Paradoxo

Realidade ambivalente do ser humano.

Ascender ao desbotar,
polimerizar o tempo,
florescer a impossibilidade,
na inconstância de existir.

segunda-feira, 1 de março de 2010

El futuro

O ódio.
Um dos sentimentos mais fortes e profundos,
quem sabe, talvez, poderia superar,
o amor.

Sem aceitarmos nossa natureza rústica,
humanizamos um mundo nada humano,
criando ilusões sobre o que poderia,
sem jamais ser;

fantasiamos o amanhã,
esquecemos o presente,
e não recordamos o passado.

Que essas são palavras-tese,
mas se assim concretizar,
que meu nome vire história,
muitos haverão de me contar.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Cerejeiras da vida

Olívio não soube o que acontecera frente a seus olhos. A pálida face embebida em seiva própria, os fios longos, ruivos, envoltos pela viscosa polpa estagnada, tais humanos membros tão frágeis, descansando suavemente, pelo quais ramificações vivas retocavam-lhe as características leitosas. Tal quadro o perturbava de tal forma que seu corpo não se movia, era regido por uma natureza maior; terrificante.

Não sabia o que ocorrera consigo. Em meio às lamurias por onde a curiosidade abre caminho, através de astuciosas espreitadelas deparou-se com olhos profundos, de um rubi puro e cristalino, onde a pupila pulsava lânguida, prestes a extinguir-se, e tudo silenciou.

Olívio não era mais. Sua desfocada visão permeando a densa floresta que o envolvia apenas conseguia deter-se às centelhas da triste e viva chama púrpura, que era exalada pelo vislumbrar vívido. O ar rarefeito fazia com que aquela profunda visão o acometesse de vertigens. Seus sentidos fartavam-se dos raios violetas enchendo-o de angústia e medo.

Seu coração pulsou.

Estava deitado nas raízes de uma frondosa cerejeira paralela a um pacífico casebre, enquanto a tarde deitava tranquilamente consentindo com a estreita vereda. Olívio refletiu, não sabia ao certo o que fora aquilo, - um sonho talvez -, e apesar de sua inquietação, recostou-se novamente na árvore observando seus galhos, suas ramificações.

Percorria com os olhos cada artéria. Via naquela trama viva tantos encontros e desencontros que, a cada singela cereja que surgia, por menor que fosse, afigurava-se com tamanha intensidade em sua mente, que por um momento chegou a acreditar que sua cor fosse sua essência, incutindo-lhe a vida, desde sua tenra idade até seu lento definhar, - e tudo parecia tão natural.

- Sou cereja? Olívio indagou.

Mas não houve uma resposta antes de suas pálpebras cerrarem-se novamente.

Olívio não era mais.
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